sexta-feira, 30 de março de 2012

Passou por ti

Hoje passou por ti
uma lufada agreste
só feita de mágoa.

Mas esqueceste
uma outra que era
apenas de frescura,
leveza  e ternura.
Estava mesmo a teu lado.

Mesmo. Mesmo a teu lado.

(Manuela Reis)

terça-feira, 27 de março de 2012

As crianças

As crianças não estão presas à terra.
De maneira nenhuma.
Trepam com os olhos
pelo mundo acima.
Exprimem o mesmo espanto
das ovelhinhas
no presépio,
que lhes vêm comer
migalhas à mão, saltam com os gatos,
beijam os cães.
Os adultos querem
ensinar-lhes coisas
mas se fossem eles
a querer aprender
é atrás delas
que teriam de correr.


(Manuela Reis)

quinta-feira, 22 de março de 2012


Mãos abertas a tudo,
olhar decidido e atento
a todos os que a cercam.
Raízes na terra amada
mas gestos espalhados
pela cidade fora.
Por fim, uma grinalda de rosas...


(Manuela Reis)

quarta-feira, 21 de março de 2012


O Poema
é o outro
corpo
de todas
as perdas.


Manuela Reis)
Partiste

Partiste logo
no início do poema
e eu fiquei só,
jogando à toa
com as palavras
que com tanto carinho
preparei para ti.
Não ficou nada.
Apenas algo de vago,
dentro de mim.

(Manuela Reis)

segunda-feira, 19 de março de 2012

A tua alma cresceu
ao longo do tempo.
O teu olhar
que parecia tão longínquo,
aproximou-se
de cada um e afagou cada
rosto isolado,triste,
sem ternura.
Puseste tudo
nas tuas mãos
e aprendeste a dar
o que tinhas e não tinhas.
A toda a gente.
Puseste tudo. Mesmo tudo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O brinquedo

O brinquedo
da minha infância
veio do mar.
Chegou à praia
e saltou a duna
e a parede de pedra.
Depois mão misteriosa
deu-lhe de novo corda.

(Manuela Reis)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Uma herança

É uma herança
o carvalho a norte
e o caramanchão
onde tomávamos o chá.
.................................
E pequenas coisas
como a aldraba
da porta grande.
......................................
Foi então que me veio à memória
a ausência do pássaro azul
que tanto queria num poema meu,
mas nunca, nunca apareceu.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Uma palavra

Dá-me uma palavra,
uma palavra apenas
com que eu chame
tudo o que me rodeia.
Terras,árvores,mar.
...........................
E nas grandes cidades,
até as construções
e os arames farpados.


(Manuela Reis)

quarta-feira, 7 de março de 2012


Já é noite

Já é noite, mesmo noite.
E ao fechar os olhos,
sonhos insondáveis
tomam conta de mim
e lançam-me
por meandros desconhecidos.
Ao despertar,
são rosas frescas alilasadas
que me esperam,
em cima da cómoda.


(Manuela Reis)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Dos meus dedos

Dos meus dedos
correm rios de água.
São verdes, amarelos,
e avermelhados,
mas os de cor de açafrão
é que me ensinaram
a dar alegria
à  minha canção.


(Manuela Reis)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Harmonia

O teu olhar atravessou
o silêncio do quarto
e foi sentar-se no banco
de pedra, junto à janela.
A luz que tocava na vidraça
aquecia-te as mãos e fazia-te
sentir calor no teu ombro.

Tudo era harmonia, naquela casa.